Fundação Municipal de Cultura Prefeitura de Belo Horizonte

DE 15 A 22 DE OUTUBRO

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O Brasil não conhece o Brasil

 

RAPHAEL VIDIGAL

“Quero ver o Brasil em cena, a gente precisa se reconhecer”. Com estas palavras o dramaturgo, ator, cantor e compositor Rodrigo Jerônimo, 34, define o principal objetivo da mostra de arte negra “Aquilombô”, cuja programação se estende deste quarta-feira (2) até 13 de agosto, com diversas apresentações. Aliás, diversidade é a palavra que rege o discurso do entrevistado. “A maioria da nossa população é autodeclarada negra e a gente não se vê no palco, como não vê índio, mulher, gay, transexual. Quando vamos nos espaços de cultura, reconhecemos a Europa e os países majoritariamente brancos. O grande público não tem acesso a toda essa diversidade brasileira”, sustenta.

Jerônimo subirá ao palco com o espetáculo “Madame Satã”, sucesso de público e crítica na capital mineira desde a estreia, em 2014, e que, recentemente, cumpriu temporada em São Paulo como parte da Semana do Orgulho LGBT na cidade. A saga do capoeirista e dançarino homossexual que inspirou samba de Noel Rosa (“Mulato Bamba”) e longa protagonizado por Lázaro Ramos serve como ponto de partida para debater questões atuais. “São reflexões atemporais. O espetáculo foi concebido num momento em que o discurso de ódio e machista foi uma tônica durante as eleições presidenciais e, infelizmente, nós ainda precisamos falar sobre racismo, homofobia, machismo, e, inclusive, a questão indígena, que não é tocada, ela é ignorada por todos nós”, aponta o ator.

Para Jerônimo, o fato de se basear em uma personagem do início do século XX revela o quão preocupante é o panorama para superar demandas urgentes. “Nossa atual situação se parece muito com o Brasil desde que ele foi colonizado, porque antes não era assim, e isso é muito triste, lutamos pelas mesmas coisas há décadas e décadas”, lamenta o artista, que aproveita a brecha para uma brincadeira. “Graças ao ‘Madame Satã’ eu passei de ilustre desconhecido para desconhecido apenas”, graceja.

Luta. Companheira de Jerônimo no palco em “Madame Satã”, a cantora, compositora e atriz Julia Dias, 27, também vai se apresentar com o Coletivo Negras Autoras, ao lado de Lauriza Anastácio, Manu Ranilla, Nath Rodrigues e Vi Coelho. Em cena, o segundo espetáculo da companhia, intitulado “Eras”. “É um show totalmente autoral que nasce como desdobramento do nosso primeiro espetáculo, o ‘Negra’, e traz essa especificidade de abranger, além da luta racial, a questão de gênero, o desejo de nós, como mulheres negras, não sermos mais objetos do discurso, mas, sim, sujeitas, dizendo da nossa forma e com a nossa boca”, conceitua a atriz.

O espetáculo tem direção de Grace Passô e preparação vocal a cargo de Fabiana Cozza. Fora a ocupação do espaço cênico, Julia ambiciona outro ponto considerado por ela fundamental na melhoria das condições para artistas negros no país. “Tristemente o Brasil ainda é racista e desigual, e a arte não está alheia a esse cenário, é um problema estrutural que atinge todos os setores da sociedade. Acho que, por vezes, o racismo acontece até de forma inconsciente, por isso é importante ter mais artistas negros como curadores, nos postos de comando e tomando decisões”, observa Julia, que acrescenta outra informação reveladora. “Esse cenário de crise não é novidade para nós, sempre estivemos na luta”, ratifica.

 

 

Fonte: http://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/magazine/o-brasil-n%C3%A3o-conhece-o-brasil-1.1503675